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Petrobras e Pemex fecham memorando para exploração, mas especialistas alertam para risco de ‘letra morta’

Petrobras e Pemex fecham memorando para exploração, mas especialistas alertam para risco de ‘letra morta’

Em 22 de agosto de 2026, a Petrobras e a estatal mexicana Pemex anunciaram a assinatura de um memorando de entendimento com validade inicial de dois anos para cooperar em exploração e produção de hidrocarbonetos. As empresas também firmaram um segundo acordo voltado ao refino e à comercialização de biocombustíveis, entre eles o etanol. O anúncio foi acompanhado por uma videochamada entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Claudia Sheinbaum, que manifestaram apoio à parceria.

O que foi acordado

O memorando de dois anos prevê intercâmbio técnico e estudos conjuntos sobre exploração e produção em áreas de interesse de ambas as companhias. Paralelamente, as empresas combinaram medidas de cooperação na cadeia de refino e comercialização de biocombustíveis, ainda sem cronogramas de investimento detalhados divulgados publicamente.

Complementaridade técnica

Especialistas consultados destacam que, em termos técnicos, há potencial de sinergia: a Petrobras possui tecnologia consolidada para perfuração em águas profundas, enquanto a Pemex detém conhecimento dos campos mexicanos, ainda que enfrente limitações tecnológicas. Gonzalo Monroy, CEO da consultoria GMEC, citou a experiência brasileira com reservas sob depósitos de sal como um ponto de aprendizado aplicável a potenciais campos no Golfo do México.

Por que especialistas temem que o acordo não avance

Apesar do potencial técnico, analistas ressaltam vários obstáculos práticos e políticos. Um ponto central é que o memorando é não vinculante; nem a Petrobras nem a Pemex ficam obrigadas a realizar aportes financeiros. De acordo com Monroy, sem compromissos financeiros firmes — típicos na indústria petrolífera — iniciativas como essa dificilmente saem do papel.

Adriano Pires, consultor em energia e fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), lembrou que o Brasil é hoje exportador de diesel e gasolina e questionou a atratividade econômica para a Petrobras investir no México. Pires também citou precedentes regionais de parcerias estatais problemáticas: durante governos anteriores, a aliança entre Petrobras e PDVSA na construção de uma refinaria no Recife resultou em custos elevados e controvérsias, sem investimento venezuelano efetivo e com desdobramentos na investigação da Lava Jato.

Fatores legais e de mercado no México

Monroy apontou ainda que a contrarreforma do setor energético no México reduziu mecanismos legais e comerciais que antes podiam atrair investimentos estrangeiros. Segundo ele, as estruturas previstas atualmente — como contratos de prestação de serviços ou joint ventures nas condições vigentes — não garantem à Petrobras a rentabilidade necessária para investir em operações mexicanas.

Biocombustíveis: acordo secundário e pressões externas

O segundo acordo, sobre refino e biocombustíveis, é visto pelos especialistas como periférico ao núcleo da cooperação petrolífera. Pires observou que a produção de etanol no Brasil é, em grande medida, do setor privado e que a estatal não é a protagonista dessa cadeia. Monroy acrescentou que o México sofre pressões externas, principalmente dos EUA (grande produtor de etanol à base de milho) e do Brasil (etanol de cana), para ampliar o uso de misturas de etanol em combustíveis.

Impacto político e calendário eleitoral

Analistas avaliam que o anúncio tem forte componente político. No México, a presidente Claudia Sheinbaum lida com a renegociação do USMCA e com influências externas sobre o mercado energético. No Brasil, eventos recentes — como a divulgação da descoberta de petróleo na foz do Amazonas, anunciada em cerimônia com a presença do presidente Lula — também ocorreram em ano eleitoral, segundo comentários de especialistas.

Elio Ohep, consultor e editor do site Energies.net, afirmou que a concretização da parceria é uma perspectiva de longo prazo — de cinco a 15 anos — e avaliou que sua continuidade dependerá, em parte, de desdobramentos políticos nacionais. Ohep chegou a dizer que o acordo só permaneceria ativo se Lula for reeleito, destacando a vulnerabilidade de empresas estatais a mudanças de governo.

Lições de acordos anteriores

Os especialistas consultados moderaram expectativas com base em experiências passadas: memorandos de entendimento frequentemente não se transformam em projetos concretos. O histórico de parcerias entre estatais latino-americanas, somado à ausência de cláusulas obrigatórias de investimento e aos riscos políticos, alimenta o ceticismo sobre a efetiva implementação das iniciativas anunciadas.

Conclusão

O memorando entre Petrobras e Pemex formaliza intenção de cooperação técnica e comercial em áreas estratégicas do setor energético, mas permanece como um compromisso preliminar e sem garantias financeiras. Para que avance além da fase de declarações e estudos, será necessário vencer entraves regulatórios, assegurar fontes de financiamento e lidar com riscos políticos que afetam empresas estatais em ambos os países.

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via G1 mundo

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