Share

Guerra no Irã acelera planos de Arábia Saudita, Emirados, Kuwait e Iraque para contornar o Estreito de Ormuz

Guerra no Irã acelera planos de Arábia Saudita, Emirados, Kuwait e Iraque para contornar o Estreito de Ormuz

O conflito envolvendo o Irã obrigou os maiores exportadores de petróleo do Golfo Pérsico a repensarem suas rotas de escoamento e a buscar alternativas que diminuam a dependência do Estreito de Ormuz, principal corredor marítimo da região.

Queda acentuada no trânsito pelo estreito

Antes dos ataques militares lançados por Estados Unidos e Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro de 2026, cerca de 20 milhões de barris de petróleo bruto por dia cruzavam o Estreito de Ormuz. Desde então, a combinação de bloqueios, minas navais, disparos de mísseis, ataques com drones e a elevação dos custos de seguros reduziu drasticamente o fluxo: segundo a empresa de monitoramento Kpler, as exportações pelo estreito caíram para cerca de 3,7 milhões de barris por dia.

Além disso, operações de risco — como navios que desligam seus sistemas de rastreamento — e ataques com drones (entre eles modelos do tipo Shahed-136) tornaram a travessia mais perigosa; ao menos 17 trabalhadores marítimos morreram na região.

Projetos para evitar Ormuz

Em resposta, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Iraque têm acelerado obras de infraestrutura: expansão de oleodutos, construção de terminais e ampliação de capacidade de armazenamento, medidas que exigirão investimentos bilionários e anos de execução.

Nos Emirados, em Fujairah, equipes trabalham sem interrupção na implantação de um segundo oleoduto paralelo ao já existente, com o objetivo de dobrar a capacidade da rota alternativa até 3,6 milhões de barris por dia. A estatal Abu Dhabi National Oil Company (ADNOC) também anunciou investimento de US$ 8,2 bilhões (cerca de R$ 42,5 bilhões) para ampliar operações de gás e estuda montar uma unidade de exportação de gás natural liquefeito (GNL) na costa leste, o que permitiria escoar produção sem passar pelo Estreito de Ormuz.

Na Arábia Saudita, a Saudi Aramco acelerou a expansão do Oleoduto Leste-Oeste — infraestrutura de 1.201 km que leva petróleo dos campos terrestres até o porto de Yanbu, no Mar Vermelho, e que foi construída nos anos 1980 durante a guerra Irã–Iraque. A tubulação já redirecionou cerca de 7 milhões de barris por dia desde que o tráfego no estreito foi afetado, e as autoridades sauditas estudam ampliar sua capacidade em mais 1 milhão a 2 milhões de barris por dia. Há também avaliação para construir um segundo oleoduto paralelo, destinado a transportar derivados como combustíveis.

Outros avanços incluem negociações do Kuwait para ligar seus campos a portos no Mar Vermelho ou em Omã; o Iraque e a Jordânia retomaram planos antigos para um oleoduto até Aqaba, no Mar Vermelho, com capacidade prevista de até 1 milhão de barris por dia; e o Iraque acelera ainda a reconstrução de uma tubulação danificada que poderia levar petróleo de Kirkuk à costa mediterrânea da Síria.

Riscos e compensações

Transferir parte do escoamento para rotas via Mar Vermelho e Omã reduz a exposição ao Estreito de Ormuz, mas cria novas vulnerabilidades. A maior dependência do Mar Vermelho expõe embarcações aos ataques do grupo houthi, no Iêmen: em 11 de agosto, uma ofensiva nessa rota matou seis tripulantes de um navio. Especialistas alertam que deslocar rotas não elimina o perigo, apenas o redistribui.

Além de construir novas rotas, governos do Golfo estão ampliando estoques em depósitos longe da região — em países como Coreia do Sul, Japão e Índia — como um seguro para garantir vendas caso o estreito seja fechado.

Perspectiva de analistas e empresas

Para analistas, a mudança é consequência direta do aumento dos riscos: Ben Cahill, pesquisador de energia da Universidade do Texas em Austin, disse que nenhum país quer ficar novamente refém de um único ponto de passagem. Executivos das petroleiras também afirmam que a prioridade agora é a segurança energética, mesmo que isso gere operações mais caras e menos eficientes.

Embora as iniciativas reduzam a dependência, consultores do setor apontam que será difícil abandonar por completo o Estreito de Ormuz, dada a infraestrutura já instalada e as vantagens logísticas da rota. Ainda assim, a atual crise mostrou, segundo especialistas, que confiar exclusivamente na passagem foi um erro estratégico que os produtores pretendem corrigir.

Leia também: Lago Nyos, Camarões: a erupção límnica de 21 de agosto de 1986 que asfixiou cerca de 1,7 mil pessoas

via G1 mundo

Sobre o autor

Deixe um comentário