O chamado “Fed model” — que confronta o rendimento esperado das ações com o rendimento do título público americano de 10 anos — reapareceu nos debates de mercado a partir de 2023, quando a elevação das taxas fez o spread entre esses indicadores se estreitar e, em alguns momentos, inverter sinal. Gestores e analistas passaram a interpretar esse movimento como um aviso de que ações estariam menos atrativas frente à renda fixa, mas há comprovação limitada de que o modelo seja um guia confiável por si só.
Em termos práticos, o modelo compara a earnings yield (inversa do P/L esperado) do S&P 500 com a yield nominal do Treasury de 10 anos: quando o rendimento das ações excede o do título, as ações são consideradas relativamente baratas; quando fica abaixo, são consideradas relativamente caras. A hipótese parte da ideia de que ações e títulos competem por alocação de capital em portfólios institucionais.
Apesar de sua simplicidade, a literatura acadêmica e estudos empíricos apontam limitações importantes. Críticas técnicas destacam incompatibilidades entre variáveis nominais e reais, sensibilidade a expectativas de inflação e fraca performance estatística para prever retornos futuros quando comparado a outros indicadores de valuation. Em trabalhos recentes, pesquisadores reavaliaram várias especificações do modelo e mostraram que sua utilidade é limitada sem ajustes que incorporem crescimento de lucros e risco real.
Nos últimos anos, com a normalização das taxas de juros após o choque inflacionário, grandes gestoras e relatórios de mercado passaram a registrar que o sinal do Fed model tornou-se menos favorável às ações — em relatórios de 2024/2025 alguns grupos apontaram que o spread assumiu valores que historicamente indicariam sobrevalorização acionária em relação à renda fixa. Essas leituras, porém, variam conforme a métrica usada (earnings forward vs trailing, títulos reais vs nominais) e o horizonte de análise.
Para investidores e gestores, o consenso prático foi conservar ceticismo: o Fed model pode ajudar a sinalizar mudanças na atratividade relativa entre classes de ativo, mas não substitui análises mais amplas de prêmio de risco, crescimento de lucros, avaliação por múltiplos setoriais e fatores macroeconômicos. Em outras palavras, trata‑se de uma peça do quebra‑cabeça, não da resposta final.
Em resumo, o modelo voltou a produzir sinais relevantes desde a alta dos juros, mas não há consenso de que “esteja funcionando” como um indicador definitivo de compra ou venda. A leitura mais prudente para 2026 é a de que ele deve ser usado juntamente com outras métricas — sobretudo as que incorporam expectativas de crescimento real e volatilidade macroeconômica — antes de tomar decisões de alocação entre ações e títulos.
Leia também: Futuros do gado caem após anúncio sobre tarifas e fraqueza do mercado à vista
via INVESTING AÇÕES